EUR/USD. O dólar e a Groenlândia. Por que Davos é tão importante?

Pelo segundo dia consecutivo, o Índice do Dólar Americano permaneceu sob pressão, à medida que as tensões entre os Estados Unidos e a União Europeia continuam a aumentar. Ainda que Bruxelas tenha tentado amenizar a situação ontem, as condições gerais permanecem tensas e, mais importante, incertas.

Normalmente, em tais circunstâncias, o dólar desfruta de uma maior demanda graças ao seu status de porto seguro. Mas não desta vez. As medidas retaliatórias que estão sendo discutidas assustaram os otimistas do dólar, causando um enfraquecimento generalizado da moeda americana.

Tudo começou quando Donald Trump anunciou a imposição de uma sobretaxa adicional de 10% sobre produtos de vários países europeus a partir de 1º de fevereiro. Segundo o presidente dos EUA, caso até 1º de junho não seja fechado um acordo para a compra da ilha dinamarquesa, a alíquota subiria para 25%.

Em resposta, o lado europeu admitiu a possível utilização do chamado Instrumento Anti-Coerção (ACI) contra os Estados Unidos. Esse mecanismo permitiria à UE bloquear o acesso a uma parcela significativa do mercado único europeu. Ao mesmo tempo, acordos internacionais vigentes poderiam ser preteridos em favor do ACI.

Embora essa "bazuca comercial" pudesse causar danos relevantes à própria União Europeia, os traders de EUR/USD estão focados sobretudo nas potenciais consequências para os EUA. O ACI poderia atingir setores inteiros da economia americana — como serviços digitais, farmacêutico, aviação e finanças — por meio de tarifas, restrições de acesso ao mercado e às compras públicas da UE, além de maior pressão regulatória sobre empresas norte-americanas. Isso elevaria os custos corporativos, aprofundaria a fragmentação do comércio transatlântico e, em última instância, poderia afetar negativamente investimentos e cadeias de suprimento.

Nesse contexto, o dólar vem se enfraquecendo no mercado, principalmente devido ao aumento da incerteza estratégica em torno dos Estados Unidos. O simples fato de a UE demonstrar disposição para ativar o Instrumento Anti-Coerção — um mecanismo jamais utilizado até hoje — força os traders a reavaliar a sustentabilidade de longo prazo da dominância econômica americana. Esse cenário incentiva a migração de ativos denominados em dólar para instrumentos mais diversificados. O status de "porto seguro" perde força quando o próprio "porto" se prepara para enfrentar turbulência.

Por esse motivo, a atenção dos traders de EUR/USD volta-se agora para Davos, na Suíça, onde o Fórum Econômico Mundial começou ontem. Durante o evento, espera-se que Trump se encontre com líderes europeus, ocasião em que provavelmente reiterará seus planos de ampliar o controle dos EUA sobre a Groenlândia.

Após o fórum de Davos, os líderes da UE devem reunir-se em uma cúpula de emergência para formular uma resposta paneuropeia aos Estados Unidos. Segundo a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, "a União Europeia manterá firme o seu compromisso de proteger a Groenlândia". A França, por sua vez, conforme reportado pelo Le Monde, defende abertamente a utilização do Instrumento Anti-Coerção contra os EUA. Resta saber se os demais líderes europeus apoiarão Emmanuel Macron — nesse caso, seria necessária uma maioria qualificada, e não unanimidade.

É plausível supor que, após o fórum de Davos, os acontecimentos sigam um cenário de escalada, e não o contrário. De acordo com vários veículos de imprensa, Trump vai a Davos "com uma postura agressiva e ambiciosa" e não pretende fazer concessões no chamado "caso da Groenlândia". Em particular, na noite passada, ele publicou mais uma imagem em sua rede social associada às reivindicações territoriais, na qual afirmou direitos não apenas sobre a Groenlândia, mas também sobre o Canadá.

Alguns analistas acreditam que uma espécie de "terapia verbal coletiva" por parte dos europeus poderia ter um efeito moderador sobre Trump — o que devolveria a situação a um quadro de negociações e, eventualmente, a algum tipo de compromisso. Por exemplo, esse compromisso poderia envolver o reforço da presença dos EUA no Ártico, incluindo a Groenlândia, no âmbito da OTAN, e/ou a participação americana em projetos regionais de segurança e desenvolvimento de recursos, em troca de garantias de respeito à soberania da Dinamarca.

Vale lembrar que, anteriormente, ameaças feitas por Trump foram diversas vezes suspensas, canceladas ou reformuladas, de modo que esse cenário não pode ser totalmente descartado.

No entanto, segundo a maioria dos especialistas, o fórum de Davos dificilmente reduzirá as tensões; pelo contrário, os próximos desdobramentos tendem a ser impulsionados por uma escalada.

Em outras palavras, os riscos de Bruxelas acionar a "bazuca comercial" permanecem, assim como os riscos de medidas retaliatórias por parte dos Estados Unidos.

Os mercados, por sua vez, estão interpretando o atual quadro em relação ao dólar americano e seguindo a estratégia de "vender a América", o que colocou a moeda sob forte pressão. O par EUR/USD avança rapidamente, renovando máximas de vários dias. Ainda assim, uma alta tão acelerada antes de um evento de grande relevância — como as negociações de Davos com Trump — não inspira plena confiança. Caso, ao contrário das expectativas mais pessimistas, as partes emitam declarações conciliatórias, o par pode recuar com a mesma rapidez para a região de 1,16.

Em um ambiente marcado por elevada turbulência — e, sobretudo, por incerteza —, a postura mais prudente em relação ao EUR/USD é a de aguardar.