Os receios do passado voltam a pressionar o mercado

Tudo o que é novo costuma ser um velho bem esquecido. Antes do conflito no Oriente Médio, o mercado de ações dos Estados Unidos já apresentava volatilidade, impulsionada por preocupações de que os gastos corporativos com inteligência artificial estivessem inflados e de que essas empresas não conseguiriam gerar lucros robustos — ou até que a IA pudesse levar algumas companhias e setores inteiros, especialmente o de software, a prejuízos significativos. Também surgiram receios de que uma nova bolha tecnológica estivesse se formando, semelhante ao estouro da bolha das ponto-com. Com a diminuição do foco na geopolítica, o S&P 500 voltou a refletir essas preocupações anteriores.

O índice amplo acumula alta de cerca de 18% desde o início de abril e caminha para registrar seu melhor desempenho mensal desde 2002. Grande parte desse resultado se deve aos fortes balanços corporativos das empresas americanas, especialmente no setor de tecnologia.

Desempenho Mensal do S&P 500

Analistas de Wall Street estimam que o lucro por ação (EPS) do grupo de Big Tech deve crescer cerca de 41% no primeiro trimestre, aproximadamente o dobro da expansão esperada para o setor de materiais, o segundo colocado.

Não surpreende que o S&P 500 esteja, na prática, deixando em segundo plano o conflito no Oriente Médio e concentrando sua atenção em um único fator — a capacidade da inteligência artificial de gerar resultados financeiros expressivos.

Expected EPS dynamics by S&P 500 sector

No entanto, assim que algo dá errado, o índice amplo entra em uma onda de vendas. A correção foi desencadeada por uma reportagem do The Wall Street Journal informando que a OpenAI, desenvolvedora do ChatGPT, não atingiu as previsões de receita e crescimento de usuários. A notícia pressionou imediatamente as ações relacionadas, incluindo Oracle, CoreWeave, SoftBank, entre outras, já que essas empresas haviam financiado a OpenAI. Os problemas na desenvolvedora do ChatGPT reacenderam preocupações anteriores e desencadearam vendas em todo o S&P 500.

O Goldman Sachs afirma que uma correção no índice amplo é esperada. Essa avaliação reflete tanto um posicionamento excessivamente otimista quanto uma mudança por parte de grandes investidores institucionais, que passaram de compradores para vendedores. Fundos sistemáticos, que injetaram cerca de US$ 53 bilhões no S&P 500 em abril, interromperam as compras no fim do mês. Ainda assim, o Goldman mantém uma visão construtiva para as ações dos EUA e argumenta que qualquer correção representaria uma excelente oportunidade para aumentar a exposição comprada.

As más notícias da OpenAI serviram como um alerta antes da divulgação dos resultados das grandes empresas conhecidas como "Magnificent Eight". Caso esses balanços decepcionem, a correção pode se aprofundar. Além disso, os investidores permanecem cautelosos com possíveis sinais mais duros "hawkish" por parte do Federal Reserve após a reunião do FOMC de abril.

Do ponto de vista técnico, o S&P 500 testou o valor justo na região de 7.120 no gráfico diário. O suporte se manteve, e os compradores podem voltar ao mercado em caso de avanço acima de 7.165. Por outro lado, uma queda abaixo de 7.110 funcionaria como gatilho para vendas.