O despertar do dólar

Por vezes, a melhor ação é a inação, mas a passividade do Federal Reserve começa a preocupar os investidores. Os rendimentos dos títulos do Tesouro norte-americano de longo prazo atingiram máximas não vistas desde 2023, em meio aos receios de que o banco central não atue de forma suficientemente decisiva para conter a aceleração da inflação.

Juntamente com a crise política no Reino Unido e a repatriação de capitais por investidores japoneses, esse movimento impulsionou os rendimentos soberanos globais e reforçou a pressão baixista sobre o EUR/USD.

Dinâmica dos rendimentos dos títulos do Tesouro

A Société Générale observa que os rendimentos dos Treasuries de dois anos negociaram numa faixa entre 3,4% e 3,7% desde setembro de 2025 até o início do conflito no Oriente Médio, apesar do forte crescimento da economia dos EUA, dos investimentos maciços em IA e dos sinais de pressão inflacionária nas periferias. Nesse período, o índice do dólar oscilou entre 96 e 101 pontos, enquanto o EUR/USD variou entre 1,14 e 1,21.

O rali dos rendimentos despertou o dólar. Antes, a força do greenback era limitada pela postura passiva do Federal Reserve em comparação com outros bancos centrais; agora, os mercados exigem uma revisão dessa estratégia. Os derivativos anteciparam o início esperado do aperto monetário de abril de 2027 para dezembro, e a Yardeni Research vem instando o Fed a abandonar uma postura passiva de mero observador.

Se o Fed continuar à margem, os investidores recearão que o banco central esteja permitindo que a inflação saia do controlo, motivo pelo qual os detentores de Treasuries exigem um prémio de risco mais elevado. Ao permanecer inativo e sem sinalizar aperto monetário, o Fed corre o risco de perder o controlo do mercado obrigacionista.

A procura pelo dólar também está a aumentar porque o excesso de liquidez em dólares está a diminuir, observa o Crédit Agricole. A procura pelo dólar é impulsionada pelo rali do petróleo Brent e pelo aumento das exportações norte-americanas de petróleo e derivados — agora num recorde de 14,2 milhões de barris por dia. Enquanto o bloqueio do Estreito de Ormuz persistir, essa procura tende a crescer, ao mesmo tempo que a Agência Internacional de Energia alerta para a rápida redução dos estoques comerciais de petróleo.

Rendimentos dos títulos do Tesouro e dinâmica do S&P 500

O rali dos rendimentos dos títulos do Tesouro norte-americano eleva os custos de financiamento das empresas dos EUA, comprime as margens de lucro e pesa sobre os índices acionários. Isso aumenta o risco de uma correção no S&P 500 e é interpretado como uma deterioração do apetite global por risco. Em um ambiente como esse, a procura pelo dólar americano como ativo de refúgio tende a aumentar.

Do ponto de vista técnico, o gráfico diário mostra que o EUR/USD tenta encontrar um fundo após quatro dias consecutivos de queda. No entanto, enquanto o euro negociar abaixo do nível de 1,1675, o viés permanecerá de baixa. A recomendação continua sendo manter uma estratégia de venda.