Parece que nem tudo está tão positivo quanto Trump afirma. Segundo o relatório da Universidade de Michigan, o índice de sentimento do consumidor referente a maio de 2026 atingiu a mínima histórica desde o início da série, em 1952. O valor final ficou em 44,8 — abaixo da leitura preliminar de 48,2 e também da previsão de mercado de 48,2. Este foi o terceiro mês consecutivo de queda.
O índice de expectativas dos consumidores caiu ainda mais, para 44,1, também estabelecendo um novo mínimo histórico. Para efeito de comparação, o recorde negativo anterior havia sido registado em junho de 2022, em 50,0 — no auge da inflação pós-COVID. O nível atual está cerca de 10% abaixo desse valor.
A principal razão para essa queda é o conflito entre os EUA e o Irã, além do bloqueio do Estreito de Ormuz. O relatório indica que o sentimento do consumidor vem caindo há três meses consecutivos, à medida que as interrupções no abastecimento através do Estreito continuam a pressionar os preços da gasolina.
57% dos consumidores identificaram espontaneamente os preços elevados como a principal ameaça às suas finanças pessoais — ante 50% no mês anterior. Cerca de um terço mencionou os preços da gasolina, enquanto 30% citaram as tarifas.
A parte mais preocupante do relatório são as expectativas de inflação. As expectativas para um ano subiram de 4,7% para 4,8%, enquanto as expectativas de longo prazo (5–10 anos) avançaram de 3,5% para 3,9%, atingindo o maior nível em sete anos. Antes da guerra, em fevereiro, estavam em 3,4% e 3,3%, respetivamente.
De forma crítica, os consumidores já não acreditam no caráter temporário da inflação: esperam que a alta de preços se espalhe muito além dos combustíveis. Quando as expectativas de longo prazo se afastam quase para o dobro da meta de 2% do Federal Reserve, isso deixa de ser apenas uma estatística — passa a ser um problema estrutural.
Para o dólar, essa situação cria uma contradição clara. No curto prazo, o sentimento fraco pressiona a moeda americana: a desaceleração do consumo sinaliza perda de dinamismo econômico, levando os mercados a precificarem um maior risco de recessão.
Por outro lado, no médio prazo, a subida das expectativas de inflação para 4,8% obriga o Fed a manter os juros elevados ou até aumentá-los, o que tradicionalmente favorece o dólar. Os mercados já descartaram completamente um corte de juros em 2026, enquanto a probabilidade de uma alta até dezembro está estimada entre 28% e 40%.
No longo prazo, o destino do dólar dependerá essencialmente de uma variável: o Estreito de Ormuz. Se as negociações com o Irã avançarem e o petróleo regressar à faixa de US$ 80–85, a inflação começará a desacelerar, as expectativas irão estabilizar-se e o Fed ganhará margem para flexibilizar a política monetária — o que, paradoxalmente, poderá enfraquecer o dólar em reação a notícias positivas.
Por outro lado, se o Estreito permanecer fechado e o Brent voltar para US$ 110, a inflação continuará a acelerar, forçando o Fed a apertar ainda mais a política monetária. Isso poderá desencadear uma nova onda de valorização do dólar.