Devagar e sempre vence a corrida. Mas, às vezes, a calmaria é enganosa, e um rápido olhar abaixo da superfície revela o quão intensamente os traders estão movimentando o mercado. Esse foi o cenário das ações americanas na terça-feira: o Nasdaq 100 registrou seu melhor desempenho em três semanas, e a recuperação das ações de fabricantes de chips ofuscou a nova escalada das tensões entre os Estados Unidos e o Irã. A geopolítica ficou em segundo plano assim que o setor de tecnologia voltou a dominar a atenção dos mercados.
O S&P 500 encerrou o dia com alta de aproximadamente 1%, embora o número de ações em alta e em baixa tenha permanecido praticamente equilibrado. Nove dos onze setores fecharam no campo positivo, liderados pelo setor de tecnologia. Os segmentos com pior desempenho foram bens de consumo básico e materiais. A recente fraqueza das fabricantes de chips foi motivada pelos receios de que novos concorrentes chineses no setor de inteligência artificial possam alterar o cenário competitivo. Os investidores também demonstraram preocupação com o fato de que, apesar dos sólidos fundamentos das empresas, as avaliações do setor continuam elevadas.
Ainda assim, o mercado acredita que a concorrência externa não elimina a necessidade de as empresas continuarem investindo bilhões em infraestrutura de inteligência artificial. Isso parece mais uma interrupção temporária em um longo ciclo de investimentos em capital (capex) do que o fim desse ciclo. No entanto, quem compra todas as quedas de preço corre o risco de perder a visão do cenário mais amplo, ignorando as pressões inflacionárias que, mais cedo ou mais tarde, deverão comprimir as avaliações de mercado.
Reação do S&P 500 às notícias econômicas
Um forte impulso econômico é uma faca de dois gumes: por um lado, sustenta os lucros corporativos; por outro, pode se tornar um problema caso a economia superaqueça. Historicamente, quando o índice de surpresas econômicas do Citi ultrapassa os 40 pontos, isso costuma anteceder quedas no S&P 500, cuja recuperação leva, em média, cerca de três meses. A combinação de um Federal Reserve empenhado em combater a inflação, das tensões geopolíticas e de um mercado que interpreta continuamente os dados cria um ambiente em que "boas notícias são más notícias".
Os investidores também estão se tornando mais seletivos em relação às empresas ligadas à inteligência artificial, mesmo após a divulgação de resultados robustos, embora o crescimento dos lucros continue sustentando uma perspectiva otimista para o longo prazo. Enquanto o mercado navega por águas aparentemente calmas, ajustando sua rota de tempos em tempos, poucos investidores estão posicionados para um cenário de choque — as preocupações permanecem concentradas em empresas e setores específicos.
Desempenho do S&P 500 em relação à maioria das ações
Este ano, já houve 52 dias de negociação em que o índice se moveu em uma direção, enquanto a maioria de seus componentes se moveu na direção oposta — o terceiro maior número do século, atrás apenas do início dos anos 2000, e 2026 está a caminho de estabelecer um novo recorde. Um padrão semelhante surgiu durante 2023–2024, quando o setor de tecnologia era, na prática, o único a dar o tom. Hoje, o quadro mudou.
A Alphabet é a primeira entre as hiperescaladoras a divulgar seus resultados nesta semana, seguida pela IBM, pela Intel e pela Tesla. É provável que o mercado continue apenas flutuando na superfície. A questão é por quanto tempo ele conseguirá seguir assim sem chamar atenção.
Tecnicamente, o gráfico diário mostra que o S&P 500 recuperou um pouco de estabilidade. Uma quebra acima do valor justo, em 7.540, seria um sinal de compra.