A desgraça nunca vem só. O ouro aprendeu isso da pior forma. O metal precioso despencou para o menor nível em quase duas semanas, por vários motivos: a escalada das tensões no Oriente Médio, o fortalecimento do dólar americano e uma forte alta nos rendimentos dos Treasuries.
A queda de três dias do metal foi a sequência mais longa desde o início de julho. Os rendimentos dos títulos globais saltaram para máximas não vistas desde 2008, enquanto o dólar americano ganhou força. Para o ouro, que não gera rendimento, esses são obstáculos clássicos. Os derivativos da CME mostram que a probabilidade de uma alta de 25 pontos-base dos juros pelo Fed neste mês está próxima de 70%.
Evolução diária do ouro
A queda do XAU/USD começou na sexta-feira, quando o presidente do Fed, Kevin Warsh, reiterou mais uma vez sua intenção de combater a inflação. Mas a liquidação não parou por aí: a retomada das hostilidades no Oriente Médio elevou os preços do petróleo, o que, por sua vez, reacendeu os temores de uma pressão persistente sobre os preços. O governador do FOMC, Michael Barr, advertiu que a inflação corre o risco de se enraizar caso o banco central não aja de forma decisiva.
Os EUA realizaram novos ataques contra alvos no Irã, e Teerã anunciou uma resposta. Semanas de relativa calma no Oriente Médio chegaram ao fim, e o mercado voltou a precificar um prêmio de risco geopolítico. Os rendimentos dos Treasuries de 30 anos retornaram aos níveis anteriores à tentativa do secretário do Tesouro, Scott Bessent, de esfriar o mercado com um programa ampliado de recompra. O efeito mostrou-se de curta duração: a liquidação recomeçou quase imediatamente.
Na prática, estamos diante de um clássico dilema de política monetária. O Tesouro quer rendimentos mais baixos, o Fed quer inflação mais baixa, e nenhuma das duas instituições está disposta a sacrificar o crescimento econômico para atingir seu objetivo, observa o World Gold Council. O Fed, porém, dispõe de maior poder de fogo, e o tom hawkish de Kevin Warsh já inclinou o mercado em favor do dólar, em detrimento do XAU/USD. A Allianz Global Investors considerou a reação do mercado razoável: a queda refletiu simplesmente uma maior probabilidade de aperto da política monetária pelo Fed.
Entretanto, as entradas em ETFs de ouro continuam, embora em ritmo visivelmente mais lento. As posições líquidas em futuros aumentaram, mas o sentimento geral de alta no mercado de futuros arrefeceu um pouco. Ainda assim, o WGC acredita que o impulso de baixa de curto prazo pode não ter terminado — fatores demais estão pesando sobre o metal ao mesmo tempo.
O ouro poderá recuperar seu status de porto seguro se o Fed tiver declarado guerra à inflação? Duvido que a resposta surja antes que a atual escalada de tensões no Oriente Médio se acalme.
Tecnicamente, pode estar se formando uma barra de pino no gráfico diário do ouro, o que poderia ajudar o metal a se estabilizar. Se isso acontecer, uma quebra do XAU/USD acima da máxima da barra de pino, em US$ 4.337, serviria de base para compras.