Euro passa a ser moeda de financiamento

O dólar vinha avançando como um trem em que as pessoas relutavam em embarcar — e agora esse trem está freando bruscamente. O EUR/USD se recuperou das mínimas locais, e o rali do dólar rumo à sua máxima do ano perdeu momentaneamente o ímpeto.

Dinâmica do dólar americano

Os investidores se aglomeraram em torno do dólar porque os EUA oferecem rendimentos mais altos, uma economia resiliente e status de ativo de refúgio em meio à incerteza geopolítica. O mercado futuro vinha precificando uma trajetória do Fed mais agressiva do que a de outras grandes economias, o que ajuda a explicar por que o EUR/USD permaneceu tanto tempo sob pressão.

Mas o ritmo do rali acabou se voltando contra si. Os mercados chegaram a precificar mais de 80 pontos-base de altas dos juros pelo Fed até setembro de 2027, incluindo um movimento já neste ano — um nível que se mostrou excessivo. A reprecificação dessas expectativas desencadeou a correção, e o dólar americano chegou a se assemelhar brevemente a um velocista que calculou mal a distância.

Uma forte alta no prêmio de risco do dólar forçou o encerramento de posições especulativas que apostavam em uma valorização adicional. Os traders preferiram realizar lucros em vez de aumentar suas posições no pico, o que ajudou o EUR/USD a se recuperar. Ao mesmo tempo, o euro está se tornando a moeda de financiamento para operações de carry trade, refletindo um prêmio crescente pelo risco político.

Custo do seguro contra um calote da França

Um fator negativo importante para a moeda única continua sendo a crise orçamentária da França. Os rendimentos dos títulos franceses de 10 anos estão próximos das máximas de 2002, enquanto a dívida pública atingiu 119% do PIB e projeta-se que suba para 122%. Paris planeja tomar um recorde de €340 bilhões em empréstimos em 2027 — uma perspectiva que já está provocando contágio nos rendimentos de títulos da Grécia, da Itália e da Espanha. O euro estala como gelo sob o peso do orçamento francês, e nem mesmo o atual repique do EUR/USD consegue aliviar esse fardo.

A turbulência no mercado de dívida da França também está reduzindo as expectativas em relação aos juros do BCE. É provável que o banco central faça uma pausa em outubro e se limite a mais uma alta de 25 pontos-base na taxa de depósito em dezembro, apesar de a inflação ter vindo acima do previsto. Condições financeiras mais apertadas reduzem a urgência de novos movimentos.

O cenário político adiciona outra camada de incerteza. A candidata à Presidência da França, Marine Le Pen, pediu que o BCE intervenha para reduzir os custos de financiamento e liberar "dezenas de bilhões de euros" para investimentos em defesa e tecnologia. O rival Jean-Luc Mélenchon classificou seu plano como uma tentativa de agradar especuladores, que apenas agravaria os déficits e a dívida. O mandato do BCE proíbe o financiamento direto dos governos, de modo que o pedido de Le Pen provavelmente será rejeitado.

Essa recuperação é suficiente para reverter a tendência ou o mercado apenas teve um alívio antes de uma nova alta do dólar?

Do ponto de vista técnico, o gráfico diário mostra uma recuperação do EUR/USD. Reações a partir de 1,1275, 1,1300 ou 1,1340 seriam motivos para vender.