Ouro perde o brilho

O ouro é conhecido como proteção contra o caos. Ainda assim, quando a turbulência realmente chegou, o metal caiu pelo terceiro pregão consecutivo.

O ouro acumula uma queda de quase 20% desde que o conflito entre os EUA e o Irã se intensificou no fim de fevereiro, quando as interrupções no abastecimento de energia aceleraram a inflação e levaram o Fed a apertar a política monetária. Tradicionalmente, juros mais altos pressionam ativos que não geram rendimentos, como o ouro.

Nesse contexto, a revisão para cima da projeção do Morgan Stanley para o Brent — para US$ 105 por barril no quarto trimestre e US$ 100 por barril no primeiro trimestre de 2027 — pressiona o XAU/USD. A oferta de petróleo proveniente do Golfo e da Rússia permanece cerca de 5,5 milhões de barris por dia abaixo dos níveis registrados há um ano, enquanto os custos de frete de petroleiros dispararam em meio às sanções e ao uso de rotas mais longas.

A persistência das pressões inflacionárias mantém vivas as expectativas de novos aumentos dos juros pelo Fed — e de rendimentos mais elevados dos títulos do Tesouro dos EUA (Treasuries) —, enfraquecendo o apelo do ouro.

Fluxos para ETFs com foco em ouro

Um dos fatores de sustentação estrutural do XAU/USD continua sendo a demanda por ouro por parte dos bancos centrais e o renovado interesse dos investidores em ETFs lastreados em ouro, mesmo que os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA (Treasuries) continuem pressionando os preços no quarto trimestre.

No entanto, esse suporte apresenta um ponto fraco. O Cazaquistão, um dos maiores compradores oficiais de ouro do mundo, está passando a vender o metal, à medida que os elevados rendimentos dos Treasuries levam a um reequilíbrio das reservas. Após suspender as compras em fevereiro de 2025, o país viu suas reservas de ouro aumentarem para 386 toneladas, o equivalente a cerca de 78% de suas reservas internacionais. O banco central pretende reduzir essa participação para 75% até o fim do ano. No final de setembro, as reservas internacionais do Cazaquistão somavam US$ 66,4 bilhões e precisam permanecer líquidas.

O Bank of America adota uma postura cautelosa em relação ao XAU/USD e não espera que os preços se mantenham acima de US$ 4.000 por onça no próximo trimestre. O banco considera que as entradas recentes de recursos em ETFs de ouro podem ser motivo de preocupação: preços à vista fracos podem estimular a liquidação de estoques, enquanto o mercado físico permanece pouco aquecido.

Os operadores aguardam a divulgação do índice de preços ao consumidor (CPI) dos EUA referente a setembro, cuja previsão é de alta mensal de 0,6%. Mais adiante, os comentários do presidente do Fed, Kevin Warsh, durante as reuniões do FMI em Bangkok poderão esclarecer a postura do banco central e as perspectivas para a continuidade do aperto monetário.

Os bancos centrais estão passando de compradores a vendedores, mas conseguirão sustentar a alta do ouro quando os juros pararem de subir?

Do ponto de vista técnico, o gráfico diário indica que uma queda abaixo do nível de valor justo de US$ 4.155 seria um sinal preocupante. Um retorno acima desse nível justificaria a abertura de posições compradas, assim como reações de alta nos suportes em US$ 4.100 e US$ 4.080.