Ontem, a Binance informou perdas de aproximadamente US$ 6,3 bilhões decorrentes de um ataque hacker, já considerado o maior roubo da história do mercado de criptomoedas. O mercado reagiu imediatamente: o Bitcoin despencou quase 5%, ficando abaixo de US$ 77.000; o Ether caiu cerca de 5,7%; o BNB recuou 8%; e o Aave sofreu uma queda de aproximadamente 11%. Para os investidores que vinham acompanhando uma recuperação dos preços ao longo de dois meses, esse movimento representou um duro golpe.
A declaração da Binance destacou as principais medidas adotadas. "Trabalhamos com parceiros do ecossistema blockchain para congelar os ativos afetados, e cerca de US$ 3 bilhões já foram congelados on-chain", afirmou a exchange. As retiradas estão temporariamente suspensas e devem ser retomadas em até 48 horas, segundo a cofundadora Yi He. A Binance comprometeu-se a cobrir todas as perdas e afirmou que os fundos dos usuários estão seguros. Vale lembrar que a exchange possui um fundo SAFU, com cerca de US$ 1 bilhão em Bitcoin, e detinha aproximadamente US$ 144 bilhões em ativos antes do ataque. Assim, a perda representa cerca de 4% desse montante.
Os analistas não demoraram a apontar possíveis responsáveis. A TRM Labs atribui o roubo a um grupo norte-coreano de hackers de elite chamado "TraderTraitor". "A TRM atribui o ataque ao TraderTraitor, grupo de hackers de elite da Coreia do Norte, com base em informações robustas obtidas dentro e fora da blockchain", afirmou a empresa. O recorde anterior de ataques desse tipo pertencia ao caso da Bybit, ocorrido em fevereiro de 2025, com perdas de aproximadamente US$ 1,5 bilhão. Portanto, a nova perda seria cerca de quatro vezes maior. Rastros on-chain indicam saídas de bilhões de dólares das carteiras da exchange: aproximadamente US$ 3,53 bilhões na rede Ethereum, US$ 1,5 bilhão em Bitcoin, US$ 628 milhões na Tron e quantias menores nas redes Arbitrum, Optimism e Base, totalizando mais de US$ 5,6 bilhões em saídas.
O ataque foi tecnicamente sofisticado. O hacker alterou temporariamente o código de uma das carteiras quentes (*hot wallets*) da Binance por meio do EIP-7702, um recurso introduzido na atualização Pectra da Ethereum que permite que uma carteira convencional se comporte temporariamente como um contrato inteligente, desde que seja apresentada uma assinatura válida com a chave privada. O invasor obteve uma assinatura desse tipo, configurou uma delegação para um contrato sob seu controle e drenou os fundos, incluindo ETH e diversos tokens, entre eles quantidades expressivas de stablecoins. Para aumentar as chances de sucesso, o hacker enviou previamente cerca de 50 autorizações com *nonces* sequenciais e as transmitiu simultaneamente. A rede aceitou apenas a transação cujo *nonce* correspondia ao esperado no momento da execução. A investigação preliminar da Binance aponta para o comprometimento do notebook de um engenheiro de DevOps e o acesso a um contêiner de serviço, embora a exchange afirme não ter encontrado indícios de vazamento de chaves privadas. A TRM suspeita de comprometimento da infraestrutura de assinatura das carteiras quentes, mas a causa-raiz definitiva ainda não foi divulgada.
Os emissores de stablecoins agiram rapidamente para conter os danos. A Tether e a Circle congelaram mais de US$ 2,3 bilhões em fundos roubados. O diretor de tecnologia da Tether, Paolo Ardoino, afirmou que mais de US$ 1,567 bilhão em USDT havia sido congelado e, posteriormente, informou o congelamento de outros US$ 200 milhões. Ele ressaltou que a proteção do ecossistema e dos parceiros é a principal prioridade da empresa. Já o CEO da Circle, Jeremy Allaire, declarou que a companhia, em colaboração com as autoridades responsáveis pela aplicação da lei, congelou mais de US$ 800 milhões em USDC e continua auxiliando a investigação. A Aave desativou mercados de empréstimo para impedir que o hacker tomasse empréstimos usando os ativos roubados como garantia.
A capacidade dos emissores centralizados de stablecoins de congelar tokens mostrou-se decisiva para conter os danos — uma possibilidade que não existe da mesma forma no caso do Bitcoin nativo. Ainda assim, segundo estimativas da TRM, o invasor continua controlando mais de 420 mil ETH e 18.270 BTC, avaliados em aproximadamente US$ 2,4 bilhões, que permanecem fora do alcance desses emissores.
Não acredito que o episódio evolua para um colapso semelhante ao da FTX. Naquele caso, a exchange tornou-se insolvente; agora, a Binance dispõe de ativos, conta com um fundo SAFU e comprometeu-se a cobrir as perdas. Além disso, parte dos fundos roubados foi congelada. Por isso, considero improvável uma crise sistêmica de confiança. Ainda assim, a pressão sobre o mercado deverá persistir até que as retiradas sejam retomadas e fique claro o que o invasor pretende fazer com os ativos restantes.
Análise técnica e recomendações
Bitcoin
Os compradores buscam um retorno à região de US$ 78.500, o que abriria caminho para US$ 79.900 e, em seguida, US$ 81.700. Um rompimento acima desse último nível sinalizaria tentativas de retomada da tendência de alta. No movimento de baixa, vale observar o interesse comprador próximo de US$ 76.900. Um rompimento decisivo abaixo dessa região poderá levar o BTC a US$ 75.300. Um alvo mais distante estaria em torno de US$ 72.800.
Ethereum
Uma consolidação acima de US$ 2.294 abriria caminho para US$ 2.355, com um próximo alvo em torno de US$ 2.398. Um rompimento acima desse nível confirmaria o fortalecimento da tendência de alta e a retomada do interesse dos compradores. No movimento de baixa, espera-se que os compradores entrem em ação próximo de US$ 2.231. Um rompimento abaixo desse nível poderá levar o ETH rapidamente a US$ 2.184. Um alvo mais distante, em caso de prolongamento da pressão vendedora, estaria em torno de US$ 2.137.
O que há no gráfico
Vermelho: níveis de suporte e resistência nos quais o preço tende a desacelerar ou acelerar.Verde: média móvel de 50 dias.Azul: média móvel de 100 dias.Verde-claro: média móvel de 200 dias.Os cruzamentos dessas médias — ou mesmo os testes do preço nesses níveis — geralmente interrompem os movimentos em curso ou dão início ao próximo impulso do mercado.