A possível fusão entre a SpaceX e a Tesla parece estrategicamente coerente, mas enfrentará importantes obstáculos regulatórios e de governança corporativa. Segundo o analista do JPMorgan, Rajat Gupta, o acordo permitiria que Elon Musk consolidasse a gestão das empresas sob uma única estrutura e criasse uma gigantesca entidade na interseção entre os setores espacial, de inteligência artificial e de transportes, com acesso a um mercado estimado em US$ 28,5 trilhões por meio da SpaceX.
A base financeira para essa integração já está estabelecida. Após uma recente IPO recorde, que levantou US$ 85 bilhões (a US$ 135 por ação), a capitalização de mercado da SpaceX alcançou US$ 2,2 trilhões, superando o valor de mercado da Tesla, estimado em US$ 1,5 trilhão. As ações da empresa espacial passaram a funcionar como uma moeda de troca de alta qualidade para uma eventual aquisição da montadora.
Gupta aponta a China como o principal obstáculo ao acordo. Os contratos de defesa da SpaceX com o governo dos Estados Unidos e a ausência de autorização para operar o Starlink na China entram diretamente em conflito com a forte presença industrial da Tesla no país.
A governança corporativa também continua sendo uma questão sensível. Musk controla 85% das ações com direito a voto da SpaceX (com uma participação acionária de 42%), mas detém apenas 20% do poder de voto na Tesla (com uma participação acionária entre 13% e 15%). Essa diferença de avaliação entre as empresas faz com que a fusão se assemelhe mais a uma aquisição direta da Tesla, o que provavelmente provocaria insatisfação entre os acionistas minoritários devido ao risco de diluição de suas participações.
Do ponto de vista operacional, as empresas já funcionam de forma integrada, compartilhando engenheiros, infraestrutura de inteligência artificial e a fábrica de chips Terafab, no Texas. A SpaceX compra baterias Megapack e veículos Cybertruck, enquanto a Tesla anteriormente investiu US$ 2 bilhões na startup de IA xAI, ligada à SpaceX. Ambas as empresas vêm realizando investimentos agressivos em inteligência artificial. No primeiro trimestre de 2026, a SpaceX destinou 76% de seus US$ 10,1 bilhões em despesas de capital (capex) a esses projetos, enquanto o orçamento anual da Tesla para inteligência artificial e robótica deverá alcançar cerca de US$ 25 bilhões.
A presidente da SpaceX, Gwynne Shotwell, não descartou uma futura fusão, afirmando que isso "poderia tornar a vida de Elon um pouco mais fácil". Para viabilizar o acordo, o JPMorgan considera quatro cenários possíveis: uma aquisição direta da Tesla por meio de ações, a criação de uma nova holding, um modelo híbrido envolvendo dinheiro e ações ou uma fusão parcial realizada em etapas.