
Atualmente, os bancos centrais destinam mais recursos às reservas de ouro do que aos títulos do Tesouro dos EUA, retirando destes o status de principal ativo de reserva do mundo. O Financial Times, citando o Banco Central Europeu (BCE), informa que a participação do metal precioso nas carteiras dos bancos centrais atingiu 27% no final de 2025. Ao longo do ano, essa participação aumentou 7 pontos percentuais, enquanto a fatia da dívida pública dos EUA caiu de 25% para 22%. A mudança na arquitetura financeira internacional e a redução da confiança na dívida soberana dos EUA foram consequências diretas da geopolítica.
A busca por alternativas ao dólar americano acelerou-se significativamente após 2022, quando os EUA e a União Europeia congelaram as reservas soberanas da Rússia. Esse precedente mostrou aos bancos centrais de todo o mundo os riscos de manter reservas em moedas fiduciárias no exterior. O ouro, livre de risco de contraparte, tornou-se o principal ativo defensivo em meio às guerras comerciais. A forte demanda por parte de bancos centrais e investidores levou a uma alta histórica: somente em 2025, o metal disparou 65%. Isso provocou um aumento acentuado no valor das reservas de ouro dos bancos centrais em seus balanços patrimoniais, mesmo sem novas compras.
O efeito dessas mudanças estruturais nos mercados de commodities foi ilustrado de forma clara pelo caso da Rússia. Desde fevereiro de 2022, os países da União Europeia congelaram cerca de €210 bilhões (US$ 244 bilhões) em ativos soberanos russos. No entanto, os ganhos inesperados da Rússia decorrentes da reavaliação de suas próprias reservas de ouro alcançaram US$ 216 bilhões. Esses ganhos compensaram, na prática, o valor dos ativos congelados no Ocidente. A situação demonstrou claramente a vulnerabilidade das sanções diante de uma migração global de instituições financeiras para ativos tangíveis.
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